O Botão “Turbo”: Uma Ilusão dos Anos 80 e 90
Nos anos 80 e 90, muitos computadores pessoais traziam um botão intrigante chamado “Turbo”. Ao seu lado, um display LED exibia números como “66”, “33” e “88”, sinalizando que o usuário teria acesso a uma maior potência da máquina. Para os usuários da época, acionar o botão Turbo era sinônimo de velocidade e desempenho, mas a realidade era bem diferente.
O que muitos não sabiam é que o efeito desse botão era, na verdade, o oposto do que prometia. Durante quase uma década, essa característica icônica de design gerou confusão entre fabricantes e usuários.
O Caos da Compatibilidade
Para entender o funcionamento do botão Turbo, é necessário voltar a 1981, quando a IBM lançou o famoso computador pessoal IBM 5150. Equipado com a CPU Intel 8088, ele operava a 4,77 MHz. Essa velocidade não era por acaso; vinha de um oscilador de cristal de 14,31818 MHz, que ao ser dividido por 3 resultava nos 4,77 MHz.
Naquela época, muitos desenvolvedores de software utilizavam a velocidade da CPU como referência para a criação de aplicativos e jogos, pensando que essa velocidade seria constante. Contudo, o avanço da tecnologia trouxe processadores cada vez mais rápidos, que colocaram essa lógica à prova. Quando jogos, que originalmente foram feitos para rodar a 4,77 MHz, eram executados em máquinas com processadores muito mais rápidos, como os de 33 MHz, o resultado era um verdadeiro caos.
Por exemplo, em um jogo de ação que deveria ter um inimigo cruzando a tela em dois segundos, esse mesmo inimigo podia se mover em meio segundo, tornando algumas interações impossíveis. Jogos como “Space Quest IV” e “Wing Commander” ficaram famosos por seus problemas com o tempo de execução, o que tornava alguns quebra-cabeças e controles ineficazes.
A Engenhosa (e Confusa) Solução
O verdadeiro papel do botão Turbo era alternar entre dois estados de operação do processador: um para velocidade máxima e outro para um modo reduzido, geralmente em torno de 4,77 MHz ou 8 MHz para compatibilidade com software mais antigo. Diferentes sistemas implementavam isso de maneiras variadas, com alguns desativando o cache de memória ou introduzindo ciclos de espera.
Um conector na placa-mãe, chamado “Turbo SW”, permitia essa alteração, e um simples LED mostrava se o modo Turbo estava ativo ou não. Contudo, a nomenclatura enganosa gerou confusão, já que muitos usuários esperavam que pressionar o botão significasse aumentar a velocidade, mas o contrário era, na prática, o que ocorria em muitos casos.
Por Que “Turbo”?
A nomeação “Turbo” indiscutivelmente gerava uma expectativa de melhoria de desempenho, muito inspirada pelo uso do termo em automóveis. Isso levou a uma interpretação errada, em que o estado normal era considerado como a velocidade máxima. Assim, desativar o Turbo, em muitos sistemas, deixava a máquina mais lenta, aumentando a confusão.
A falta de padronização na rotulagem e na forma de conexão do botão reforçou essa confusão. Muitos usuários, sem entender a funcionalidade do botão, simplesmente o deixavam inativo, sem explorar o que ele realmente fazia.
A Farsante Exibição de MHz
Outro aspecto curioso era o display LED que mostrava números como “33 MHz” ou “66 MHz”. Ao contrário do que muitos pensavam, esses números não refletiam a velocidade real do processador; eram configurações estéticas ajustadas por jumpers na parte traseira do painel, permitindo que fabricantes exibissem números para impressionar os consumidores, mesmo que esses números fossem fictícios. Essa prática gerou uma série de fraudes de marketing.
Exceções Notáveis: O Caso de “Prince of Persia”
Apesar de muitos jogos serem afetados por esses problemas de tempo, “Prince of Persia”, lançado em 1989, se destacou como uma exceção. O desenvolvedor Jordan Mechner implementou um sistema que permitia ao jogo rodar de maneira consistente, independentemente do estado do botão Turbo, algo raro na época.
O Fim do Turbo
O botão Turbo teve uma vida relativamente curta, por volta de dez anos. À medida que a tecnologia avançou, esse recurso se tornou obsoleto. Três fatores principais contribuíram para sua queda: o surgimento do Windows 95, que introduziu multitarefa e mudou a forma como os programas acessavam a CPU; a série Pentium, que não suportava o botão Turbo; e o desenvolvimento de sistemas de gerenciamento de energia, que automatizou o controle da frequência da CPU.
Notáveis Improvisos
A história do Turbo também é repleta de anedotas hilárias. Muitos computadores tinham o Turbo controlado por software e até mesmo houve casos em que o botão nunca foi conectado, deixando o sistema sempre em modo máximo. Além disso, teclados de época apresentavam botões “Turbo” que ajustavam a taxa de repetição das teclas, mas não tinham relação com o desempenho do computador.
O Legado do Turbo
O botão Turbo, embora tenha deixado uma herança de confusão e contratempos, se tornou um símbolo dos primórdios da computação pessoal. Ele permanece na memória dos entusiastas, evidenciado pelo lançamento recente de um gabinete pela fabricante Silverstone, que recria a estética de PCs da época e inclui um botão Turbo com um display LED que imita os antigos, relembrando a era das promessas tecnológicas.
