A Pegada Ecológica e o Futuro Sustentável

    O engenheiro suíço Mathis Wackernagel, co-criador do conceito de pegada ecológica, aponta que as mudanças climáticas são um sintoma de um problema maior: o consumo excessivo de recursos do planeta. Em suas palavras, a questão central é que a humanidade está usando mais recursos naturais do que a Terra pode se regenerar.

    Wackernagel é o diretor da Global Footprint Network, uma organização que desenvolve ferramentas para promover a sustentabilidade. Ele afirma que as crises ambientais, como a emissão de gases do efeito estufa, o desmatamento e a perda de biodiversidade, estão ligadas à superexploração dos recursos naturais. Para ele, a natureza é fundamental, pois é dela que vêm alimentos, madeira e fibras. “Sem a natureza, nada funciona”, resume.

    O Dia da Sobrecarga da Terra

    Todos os anos, Wackernagel calcula a data conhecida como o Dia da Sobrecarga da Terra. Esse é o dia em que a demanda da humanidade por recursos naturais supera a capacidade dos ecossistemas em regenerá-los durante o ano. Em 2023, essa data foi 24 de julho, o que significa que, entre 1° de janeiro e essa data, consumimos tudo o que a Terra pode regenerar em um ano. Após essa data, começamos a viver em déficit ecológico, o que impacta negativamente o meio ambiente, aumentando a taxa de CO₂ na atmosfera, reduzindo florestas e afetando os recursos hídricos.

    Wackernagel alerta que atualmente a humanidade utiliza a natureza a uma taxa 1,8 vezes maior do que a capacidade de regeneração do planeta, o que equivale a precisar dos recursos de 1,8 planetas.

    O Caminho para a Sustentabilidade

    Nos últimos 20 anos, o Dia da Sobrecarga tem avançado em três meses, o que não pode continuar indefinidamente. Wackernagel explica que é possível viver com um déficit financeiro até que os recursos se esgotem, e o mesmo acontece com a natureza. O desafio é encontrar caminhos sustentáveis para evitar essa crise.

    Ele mede o impacto de diferentes países ao calcular os Dias de Sobrecarga a partir de dados da ONU. Por exemplo, se todos vivessem como os catarianos, a demanda por recursos se esgotaria em 6 de fevereiro. Enquanto isso, se a população mundial vivesse como os uruguaios, a data do Dia da Sobrecarga seria 17 de dezembro, mostrando que o Uruguai destaca-se por seu uso sustentável de recursos.

    O Caso do Uruguai

    O Uruguai se tornou um exemplo a ser seguido em termos de sustentabilidade. Desde 2008, o país fez uma transição significativa para energias renováveis, reduzindo sua dependência de combustíveis fósseis de 50% em 2008 para 99,1% atualmente. Essa transformação foi impulsionada por três fatores principais: um acordo multipartidário sobre a transição energética, a colaboração entre o setor público e privado e a revisão das regulamentações do setor energético para facilitar a entrada de fontes renováveis.

    A mudança na matriz elétrica não apenas melhorou a geração de energia, mas também trouxe benefícios econômicos, como a redução dos custos de geração de eletricidade e das tarifas para os usuários, além da criação de milhares de postos de trabalho.

    Conclusão

    Mathis Wackernagel enfatiza que o futuro da humanidade depende de decisões locais mais do que de acordos globais. Ele acredita que o modelo uruguaio pode ser replicado em outros países, independentemente de suas características. Para ele, a questão é como cada nação se preparará para um futuro sustentável e regenerativo. O importante é lembrar que o uso excessivo de recursos não é viável a longo prazo, e a responsabilidade de mudar essa realidade está em nossas mãos.

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