O retorno ao trabalho presencial está se tornando uma prioridade para muitas empresas, mesmo com evidências demonstrando que modelos remotos e híbridos podem proporcionar maior bem-estar e produtividade aos funcionários. Estudos realizados tanto no Brasil quanto no exterior indicam que a flexibilidade no trabalho é uma preferência amplamente desejada entre os trabalhadores.

    Recentemente, o Nubank anunciou a transição para um modelo de trabalho híbrido obrigatório, que deve começar em 2026. A empresa implementará dois dias de presença obrigatória por semana em 2026 e três dias em 2027. Essa decisão foi feita após o banco registrar um dos seus trimestres mais lucrativos, com um lucro líquido de US$ 637 milhões. A movimentação gerou um novo debate sobre a necessidade de uma presença física nas empresas, especialmente considerando que o Nubank havia operado com suas equipes de forma distribuída. Ademais, o banco também está ampliando seus escritórios em diversas cidades, incluindo São Paulo, Rio de Janeiro, Bogotá e Miami.

    Especialistas como Sylvestre Mergulhão, CEO da Impulso, comentam que esse tipo de decisão parece mais uma tentativa de retomar o controle hierárquico do que uma estratégia operacional eficaz. Ele ressalta que a presença física não é um fator garantidor de alinhamento e que aspectos como clareza e confiança são fundamentais para a cultura organizacional.

    Pesquisas indicam que as preferências dos colaboradores estão distantes das exigências das empresas. Por exemplo, um estudo da USP e da FIA Business School indicou que 94% dos trabalhadores que atuam remotamente notaram melhorias em sua qualidade de vida. Adicionalmente, de acordo com a Gallup, 75% dos profissionais que trabalham em modelo híbrido acreditam ter um melhor equilíbrio em suas rotinas. Outra pesquisa da Robert Half mostrou que 67% dos colaboradores considerariam solicitar demissão se suas empresas anulassem as políticas de flexibilidade.

    No cenário nacional, o relatório “Saúde Mental em Foco 2025”, elaborado pela Vittude em parceria com a Opinion Box, revelou que 48,1% dos entrevistados preferem um modelo híbrido que permita autonomia na escolha dos dias de trabalho. Apenas 30,8% optaram pelo modelo totalmente presencial. Mergulhão destaca que a flexibilidade é um fator que aumenta a satisfação dos funcionários e diminui a exaustão emocional.

    A volta ao escritório também implica em impactos na saúde mental dos trabalhadores. Deslocamentos longos, o estresse do trânsito e a perda de tempo de descanso são fatores que podem acentuar a ansiedade. O estudo da Vittude mostra que ambientes de trabalho com pouca autonomia e alta pressão podem levar ao esgotamento e ao desengajamento.

    Um levantamento da consultoria EY revelou que 74% dos empregadores acreditam que a produtividade aumentou com a flexibilização do trabalho, e esse número chega a 80% entre os funcionários. Esse cenário sugere que a discussão sobre o modelo de trabalho vai além de métricas de desempenho e toca em aspectos humanos fundamentais para a organização.

    Outro ponto que merece atenção são as práticas de vigilância digital, que incluem o uso de softwares para monitorar a produtividade dos funcionários. Esse controle pode criar um cenário de tensão entre a necessidade de presença física e o rastreamento remoto, levantando questões sobre privacidade e confiança.

    As incertezas no setor de tecnologia também complicam esse cenário. Com demissões frequentes e o avanço da inteligência artificial, muitos profissionais sentem pressão psicológica em um contexto de retorno obrigatório ao trabalho. A pesquisa da Vittude revelou que 73,2% dos brasileiros não têm acompanhamento psicológico por razões financeiras, o que pode intensificar essas vulnerabilidades. Mergulhão adverte que decisões baseadas apenas em tecnologia podem desconsiderar os impactos organizacionais no bem-estar dos colaboradores.

    Por fim, para Mergulhão, a ação do Nubank pode influenciar as discussões no mercado. Ele enfatiza que as empresas precisam decidir se irão priorizar a confiança e os resultados ou se optarão por um modelo centralizado no controle. As escolhas que as organizações fizerem sobre seus modelos de trabalho deverão se alinhar às expectativas dos colaboradores, moldando assim o futuro da experiência profissional, seja no trabalho remoto, híbrido ou presencial.

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    Formado em Engenharia de Alimentos pela UEFS, Nilson Tales trabalhou durante 25 anos na indústria de alimentos, mais especificamente em laticínios. Depois de 30 anos, decidiu dedicar-se ao seu livro, que está para ser lançado, sobre as Táticas Indústrias de grandes empresas. Encara como hobby a escrita dos artigos no Universo NEO e vê como uma oportunidade de se aproximar da nova geração.