Disputa Científica Sobre a Turbulência em “A Noite Estrelada” de Van Gogh

    “A Noite Estrelada”, uma das obras mais icônicas de Vincent van Gogh, é conhecida por seus redemoinhos e espirais que despertam a imaginação do público. No entanto, uma nova pesquisa levantou questões sobre a conexão entre a pintura e o fenômeno físico da turbulência.

    Um estudo, publicado em 2024 por pesquisadores da China e da França, sugere que as pinceladas de van Gogh poderiam ser analisadas através do conceito de turbulência, um fenômeno complexo que descreve o comportamento caótico de fluidos. O artigo gerou um intenso debate na comunidade científica, levantando perguntas sobre a relação entre arte e ciência.

    O professor emérito James Riley, especializado em engenharia mecânica, ficou intrigado quando soube do estudo por meio de sua filha. Após ler o artigo, ele considerou a pesquisa absurda e desde então, ele e outros cientistas publicaram três respostas criticando os argumentos desse trabalho. A linguagem utilizada nas críticas foi direta e em alguns casos, dura, o que não é muito comum em publicações científicas.

    Riley e Mohamed Gad-el-Hak, um especialista em mecânica de fluidos, argumentaram que as alegações sobre a pintura deveriam ser rejeitadas sem dúvidas. Essa disputa ilustra como a ciência é um processo dinâmico, cheio de debates e desacordos, em vez de um conjunto fechado de verdades.

    François Schmitt, um dos autores do estudo de 2024, expressou em uma comunicação que ficou surpreendido com a hostilidade que encontrou nas respostas. Ele reconheceu que desacordos são parte do método científico, mas questionou o nível de agressividade nas críticas.

    O fenômeno da turbulência é um dos problemas mais desafiadores da física, afetando tudo, desde o movimento de fluidos até a dinâmica do clima. Para analisar a pintura de van Gogh, os pesquisadores examinaram 14 vórtices representados no céu noturno. Eles observaram que as pinceladas se alinhavam com uma lei matemática proposta na década de 1940, conhecida como lei de Kolmogorov, que é aplicada para entender a turbulência.

    A repercussão do artigo de 2024 foi ampla e chamou a atenção de diversos meios de comunicação. Riley viu a necessidade de corrigir o que considerou um erro de interpretação. Pesquisas posteriores, como uma análise de outra obra, “Uma Mulher Sentada ao Lado de um Vaso de Flores” de Edgar Degas, também encontraram padrões matemáticos semelhantes. No entanto, os autores desse estudo alertaram que a presença de tais padrões não é suficiente para classificar uma pintura como representativa de turbulência.

    Yongxiang Huang, um dos autores do estudo de 2024, defendeu em suas declarações que é importante observar a distinção entre arte e ciência e que seu objetivo era explorar a complexidade dos padrões de fluxo atmosférico, mantendo a integridade artística da pintura.

    Riley, em suas críticas, enfatizou que a análise feita na pesquisa de 2024 tropeçou ao aplicar teorias de fluidos de forma inadequada. Em novos artigos, os cientistas argumentaram que as conclusões do estudo original são infundadas.

    A discussão continua, com a contribuição de outros físicos, como José Luis Aragón, que fez análises anteriores mostrando evidências de turbulência em “A Noite Estrelada”. Aragón observou que sua própria abordagem sugeria que a luz e as pinceladas na obra carregam assinaturas estatísticas similares às da turbulência, oferecendo uma nova perspectiva sobre a relação entre arte e movimento.

    Embora a disputa científica continue, muitos admiradores de “A Noite Estrelada” ficam menos preocupados com essas análises e mais impressionados pela habilidade de van Gogh em capturar a beleza e a emoção em sua arte. A conexão entre sua técnica e a ciência pode ser complexa, mas a arte permanece atemporal e acessível a todos.

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