A população LGBTQIA+ enfrenta constantes desafios nos atendimentos de saúde, incluindo discriminação, falta de acolhimento e descaso por parte de profissionais. Um relatório de 2023 revela que muitas pessoas dessa comunidade evitam buscar cuidados médicos por medo de sofrer violência. O documento também destaca que muitos profissionais não estão preparados para entender as necessidades específicas desse público, falhando em respeitar as diferenças culturais e sociais que o cercam.

    O cirurgião Rodrigo Barbosa, que é especialista em cirurgia bariátrica e coloproctologia, enfatiza a importância de um olhar contínuo para a saúde da população LGBTQIA+. Ele argumenta que o cuidado com essa comunidade não pode se restringir a um mês de visibilidade, mas deve ser uma prioridade o ano inteiro. Segundo ele, a inclusão e o respeito são fundamentais para oferecer um atendimento que leve em consideração as histórias de exclusão e violência enfrentadas por essas pessoas dentro do sistema de saúde.

    Barbosa aponta que os principais obstáculos no acesso da comunidade LGBTQIA+ aos serviços de saúde incluem o preconceito institucional, a falta de preparo das equipes de saúde, o uso de linguagem inadequada e a negligência no atendimento. Um estudo da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) revelou que 31% dos idosos LGBTQIA+ relataram dificuldades sérias para acessar os serviços de saúde, em comparação com 18% dos idosos que não se identificam como parte dessa comunidade. Além disso, a pesquisa mostrou que 37% dos idosos LGBTQIA+ enfrentam depressão, contra 28% dos não-LGBTQIA+, ressaltando o despreparo dos profissionais para lidar com questões relacionadas a sexualidade e identidade de gênero.

    Para tornar o atendimento mais eficaz, a Dra. Isabela Tavares, otorrinolaringologista com especialização em glotoplastia, defende o acolhimento genuíno como fundamental para qualquer processo de transformação em saúde. Ela explica que quando os pacientes se sentem seguros para se expressar, isso não apenas melhora o tratamento estético, mas também impacta positivamente na autoestima e saúde mental.

    Isabela, junto com a fonoaudióloga Daniella Gali, busca oferecer procedimentos que respeitem a identidade de cada paciente. Elas acreditam que a voz está intimamente ligada à autoestima e que criar um ambiente de respeito e escuta é essencial para o sucesso do tratamento. Uma abordagem centrada no paciente, com protocolos adaptados e uma equipe multiprofissional treinada, pode aumentar a adesão ao tratamento e melhorar a recuperação.

    Embora existam políticas públicas como os ambulatórios direcionados à população trans e a Política Nacional de Saúde Integral LGBT, as especialistas alertam que ainda há uma lacuna em termos de recursos e preparo das equipes de saúde, tanto em serviços públicos quanto privados. A mudança verdadeira só ocorrerá quando a diversidade for considerada um valor essencial nos cuidados de saúde.

    O Núcleo de Acolhimento à Diversidade (NUAD), fundado por Rodrigo Barbosa, tem como objetivo restaurar a confiança entre os pacientes LGBTQIA+ e os serviços de saúde. A Dra. Isabela, junto com a endocrinologista Antonela Siqueira, explica que a inclusão deve ser vista como uma competência técnica e ética. A equipe do NUAD busca capacitar profissionais por meio de rodas de conversa, escuta ativa e treinamento com base em referências nacionais e internacionais sobre identidade de gênero e orientação sexual.

    O acolhimento especializado é visto como um elemento central para a adesão às práticas de cuidado e para a redução do sofrimento psicológico entre aqueles que historicamente foram excluídos do sistema de saúde. O objetivo do NUAD é tornar as visitas médicas um ato diário, seguro e confortável, reafirmando que o cuidado eficaz só é possível quando se respeita a diversidade humana.

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