A Jamaica, famosa por suas praias de areia branca e águas cristalinas, tem enfrentado uma crescente privatização de sua costa. Um exemplo disso ocorreu em 2020, quando a praia da baía de Mammee foi vendida para um empreiteiro, que iniciou a construção de um resort de luxo e de um complexo residencial, bloqueando o acesso à praia para os moradores locais.

    Essa mudança impactou diretamente os pescadores da comunidade de Steer Town, que dependem das águas da região para sua subsistência. O fechamento da praia não foi um caso isolado; o acesso ao rio Roaring, popular entre a população, também foi restringido após a venda de terras para a China Harbour Engineering Company, que tinha planos de construção de residências particulares.

    Devon Taylor, um dos fundadores do Movimento Ambiental pelo Direito por Nascimento às Praias da Jamaica (JaBEEM), levantou questões sobre como a comunidade pode perder o acesso a esses espaços naturais que foram parte de suas vidas por gerações.

    Atualmente, a situação das praias da Jamaica é preocupante. Apesar de a ilha ter 1.022 km de litoral, apenas 0,6% do total é acessível ao público, de acordo com dados do JaBBEM. Em 2024, a Jamaica recebeu um recorde de 4,3 milhões de turistas, mas, para os jamaicanos, as praias tornam-se cada vez mais inacessíveis com o aumento de projetos turísticos. A maior parte da receita gerada pelo turismo, cerca de 60%, não permanece na ilha, o que gera preocupações sobre quem realmente se beneficia desse crescimento.

    A privatização das praias começou há cerca de setenta anos, durante a colonização britânica, e se intensificou nos últimos cinco anos. Estima-se que até 2030, 10 mil novos quartos de hotel sejam construídos, muitos deles em áreas antes acessíveis ao público, como o Hard Rock Hotel e o Moon Palace The Grand.

    A Lei de Controle das Praias, vigente desde 1956, permite que o governo transfira áreas costeiras para a iniciativa privada e não garante o direito de acesso público às praias. Para alguns advogados e ativistas, isso representa uma grave ameaça à cultura local e à subsistência das comunidades que dependem do mar e das praias.

    A partir de 2021, movimentos como o JaBEEM começaram a ganhar força, levando ações judiciais para garantir o acesso público às praias. Atualmente, cinco ações em tribunais estão sendo processadas, envolvendo diversas áreas, incluindo a baía de Mammee e a praia de Providence, onde um resort pretende desviar o acesso da população.

    As iniciativas para barrar a privatização das praias são um reflexo do desejo da comunidade em preservar sua cultura e garantir o acesso a recursos naturais vitais. A luta por justiça e acesso às praias é um tema comum nas conversas entre moradores, que se preocupam com o futuro das próximas gerações.

    No cenário atual, a Jamaica se reconstrói após os danos causados pelo furacão Melissa, e as autoridades estão encorajando turistas a retornarem. No entanto, é cada vez mais importante que os visitantes optem por apoiar negócios locais e evitar resorts que restringem o acesso à praia. Há ainda praias públicas, como a Seven Mile, que, embora privativas de certos empreendimentos, mantêm uma conexão mais forte com a cultura local.

    Há alternativas mais acessíveis, como a praia de Winnifred, onde iniciativas de pequenos comerciantes locais oferecem uma experiência mais autêntica e próxima da tradição jamaicana. Os turistas estão cada vez mais convidados a explorar e apoiar essas opções que promovem a cultura local e preservam o patrimônio natural da ilha.

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