Em 4 de dezembro de 2024, Brian Thompson, CEO da UnitedHealthcare, foi assassinado a tiros em Manhattan enquanto se dirigia a uma conferência de investidores. O crime foi cometido por Luigi Mangione, de 26 anos, que deixou inscrições nas balas, palavras que refletiam práticas comuns entre seguradoras de saúde nos EUA: “negar”, “adiar” e “esgotar”. Essas palavras simbolizam como os planos de saúde muitas vezes dificultam o acesso à assistência médica, aumentando o sofrimento dos pacientes.
Esse acontecimento trágico gerou uma reflexão profunda sobre a confiança da sociedade no sistema de saúde privado. A repercussão foi complexa, com a atenção se voltando não apenas para o agressor ou a vítima, mas para um modelo de assistência que, em muitas situações, falha em cumprir sua missão principal: cuidar da vida dos pacientes nos momentos mais críticos.
O sistema de saúde privado nos Estados Unidos é conhecido por ser caro e excludente. Práticas como negativas de cobertura, auditorias automatizadas e a protelação no atendimento tornaram-se procedimentos comuns. Para muitos pacientes, a negativa de um tratamento não é apenas um aborrecimento administrativo, mas o início de uma série de complicações médicas que podem resultar em sofrimento prolongado ou até mesmo morte.
O assassinato de Thompson não criou essa situação, mas a destacou de maneira trágica. No Brasil, não ocorreu um ato de violência semelhante, mas há uma forma de violência institucional silenciosa que prejudica o sistema de saúde suplementar. Muitas vezes, pacientes enfrentam negativas de tratamento, atrasos em atendimentos urgentes e auditorias que priorizam interesses financeiros em detrimento da saúde.
No país, os conflitos se manifestam através de ações judiciais, com muitos pacientes buscando seus direitos na justiça. No entanto, muitas vezes essas soluções chegam quando já é tarde e o dano já ocorreu.
Nesse contexto, surge a atuação da Andess, Aliança Nacional em Defesa da Ética na Saúde Suplementar. Essa organização trabalha de forma técnica e institucional, investigando práticas irregulares no atendimento e denunciando problemas que afetam a saúde dos pacientes. A Andess busca mostrar a relação entre decisões administrativas e os resultados clínicos, evidenciando que muitos falecimentos não são consequência de erros médicos, mas sim de um modelo que trata o tempo de tratamento como um custo a ser reduzido.
A Andess também se empenha em sensibilizar legisladores sobre a importância de uma saúde que respeite a ética e o bem-estar do paciente. Recentemente, foi lançada a Frente Parlamentar em Defesa da Ética na Saúde Suplementar, um espaço para discutir e articular políticas de saúde.
O episódio nos Estados Unidos serve como um alerta. A diferença entre uma sociedade civilizada e uma em colapso não está na ausência de conflitos, mas na capacidade das instituições de agir antes que problemas se tornem crises.
No Brasil, a Andess busca conter danos no sistema de saúde, denunciando práticas inadequadas e defendendo a autonomia dos médicos e a proteção dos pacientes. O assassinato de Brian Thompson deve ser tratado como um crime, mas o contexto que o envolve não pode ser ignorado. É fundamental que os sistemas de saúde atuem de maneira ética e transparente, para que possam preservar sua legitimidade e prevenir crises que podem surgir tanto nas ruas quanto na justiça.
A questão central é até quando a sociedade permitirá que o acesso à saúde seja condicionado por questões financeiras. A violência nunca será uma resposta aceitável, mas prevenir a degradação do sistema de saúde é uma responsabilidade de todos.
