Durante a temporada de chuvas, moradores de áreas de risco em Belo Horizonte enfrentam sentimentos de medo e descaso, de acordo com relatos de residentes. A Defesa Civil Municipal emitiu um alerta de risco geológico forte para todas as regiões da capital, devido às chuvas intensas e à previsão de mais precipitações, resultantes da Zona de Convergência do Atlântico Sul.
Atualmente, cerca de 1.200 casas localizadas em vilas e favelas da cidade estão classificadas como situadas em áreas de risco. Um exemplo é a Vila Chaves, no Bairro Conjunto Califórnia II, onde Geni Mendes, líder comunitária há 14 anos, menciona o sofrimento das 217 famílias da ocupação. Geni afirma que, além da Defesa Civil, não há apoio suficiente dos órgãos públicos. “Estamos esquecidos”, lamenta.
A rotina de Maria das Graças Junia, de 49 anos e moradora do beco Boas Vindas, ilustra a preocupação generalizada. Diabética e com perda de visão, ela convive diariamente com o medo, especialmente após parte de sua cozinha desabar devido às chuvas. Apesar das advertências para que ela e sua filha, Beatriz, de 16 anos, deixem o local, Mariazinha insiste que não podem sair, mesmo com o risco de deslizamentos.
A comerciante Silvani Dias Pereira, que vive há seis anos na ocupação e já construiu um passeio à beira do córrego, também enfrenta as consequências das chuvas. Ela relata que a estrutura do seu passeio começou a ceder, o que representa risco tanto para sua família quanto para os demais moradores que dependem daquela passagem para receber mercadorias.
John Batista dos Santos, pedreiro de 43 anos, viu a entrada de sua casa ser levada por um deslizamento. Para prevenir novos problemas, os moradores colocaram lonas para proteger a área. Ele expressa esperança de que, após as chuvas, consiga construir um muro para evitar que a terra deslize novamente.
Na última segunda-feira, uma equipe da Companhia Urbanizadora e de Habitação de Belo Horizonte (Urbel) esteve na Vila Chaves para realizar vistorias. De acordo com as informações da prefeitura, a quantidade de domicílios em situação de risco pode variar conforme as circunstâncias climáticas e estruturais das áreas.
A prefeitura também informou que ações de vistoria e monitoramento são realizadas durante todo o ano, com foco em áreas críticas. Pré-chuvas, essas ações são intensificadas, visando a prevenção e a conscientização dos moradores. Nesse contexto, o Programa Estrutural em Área de Risco (PEAR) tem papel importante no acompanhamento das condições climáticas e na comunicação de alertas aos voluntários da comunidade.
Além das condições locais, especialistas explicam que os deslizamentos de terra ocorrem devido a uma combinação de fatores, como a saturação do solo e a inclinação do relevo. A água acumulada torna o solo mais pesado e, quando combinado com terrenos inclinados, aumenta o risco de deslizamentos. Terrenos desmatados agravam ainda mais a situação, pois a falta de vegetação impede a absorção de água.
Construções em áreas vulneráveis são frequentemente feitas sem assistência técnica adequada, o que contribui para problemas de drenagem e aumenta a suscetibilidade a deslizamentos durante o período chuvoso. Os moradores e as autoridades aguardam soluções para superar esses desafios e garantir a segurança das comunidades afetadas.
