A meliponicultura, que é a criação de abelhas nativas sem ferrão, está crescendo no sertão do Ceará, se destacando ao lado da apicultura tradicional. Municípios como Paramoti e Pentecoste, localizados no Vale do Curu, estão adotando essa prática como uma alternativa sustentável para gerar renda, preservar o meio ambiente e fortalecer comunidades.
O projeto chamado Néctar do Sertão, realizado pela Agência de Desenvolvimento Econômico Local (ADEL) em colaboração com o Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), visa recuperar populações de abelhas nativas. Essa iniciativa também busca resgatar uma prática ancestral que combina tradição, ciência e conservação ambiental.
Mailson Bezerra, técnico da ADEL, destaca os impactos positivos do projeto, como a conscientização ambiental que ele proporciona. Atualmente, 80 produtores de cinco municípios estão envolvidos, com um número crescente de novos participantes, incluindo jovens e mulheres.
Uma das meliponicultoras é Brena de Araújo, de 28 anos, da comunidade Sítio do Meio em Pentecoste. Ela começou a participar do projeto em 2015 e já possui seis caixas de jandaíra, além de ter obtido uma boa renda com a venda do mel e do pólen. Brena ressalta que a experiência vai além do retorno financeiro, enfatizando a importância de proteger a mata nativa e de como a meliponicultura permite que jovens e mulheres trabalhem em suas comunidades, promovendo o bem-estar familiar e a conservação ambiental.
Epifânia de Macedo, zootecnista e parceira da ADEL, lembra que o Brasil tem cerca de mil espécies de abelhas nativas, que são essenciais para a polinização de plantas e culturas agrícolas. Ela destaca a jandaíra como um símbolo no sertão, devido à sua adaptação ao clima da região e ao seu grande potencial para a educação ambiental e o turismo rural.
Everardo Alves Moreira, experiente meliponicultor, mantém um meliponário modelo desde 2016 com o apoio do projeto Rede Néctar do Sertão. Ele cuida de mais de 200 caixas de abelhas nativas, trazendo valioso conhecimento para a comunidade.
Francisco Antônio, agricultor em Paramoti, cria abelhas nativas há mais de oito anos e utiliza a meliponicultura para aumentar a renda familiar. Começou com três colmeias e já possui mais de vinte. Ele destaca que o mel da jandaíra é muito valorizado, podendo chegar a R$ 250 o litro, e é procurado por suas propriedades medicinais. Francisco menciona que o manejo das abelhas requer paciência, especialmente em períodos secos, quando é necessário alimentá-las até que voltem a coletar alimento na natureza.
Renato Araújo, assessor técnico do ISPN, afirma que a meliponicultura é um exemplo de como a conservação ambiental pode se unir ao desenvolvimento local. Ele ressalta que quem cria abelhas se torna um protetor da natureza, já que compreende a importância da preservação dos ambientes naturais.
Tino, secretário de Desenvolvimento Agrário e vice-prefeito de Paramoti, observa de perto os resultados do projeto no município. Ele informa que a associação de apicultores existe desde 1998 e a meliponicultura vem fortalecer essa iniciativa ao gerar renda e ajudar na conservação do ecossistema.
É importante recordar que as abelhas nativas são responsáveis pela polinização de cerca de 90% das plantas com flores e por 65% dos alimentos consumidos globalmente. No Ceará, a colaboração entre agricultores, pesquisadores e instituições permite que essas abelhas continuem desempenhando seu papel vital na natureza.
O projeto Néctar do Sertão é um exemplo de como é possível cultivar parcerias com a natureza, demonstrando que o sertão, quando bem tratado, pode ser um lugar repleto de vida e conhecimento. Este projeto é uma continuação da iniciativa da ADEL com o Fundo Ecos, seguindo outros projetos anteriores de 2013, 2015 e 2024.
