Censura e Lançamento de “Roque Santeiro”

    A novela “Roque Santeiro”, criada por Dias Gomes, teve uma trajetória marcada por desafios significativos, especialmente em relação à censura durante a ditadura militar no Brasil. A trama, que seria a primeira novela das oito em cores, estava programada para estrear no dia 27 de agosto de 1975. Com 30 capítulos já gravados, o elenco contava com nomes como Betty Faria, no papel da protagonista Porcina, Francisco Cuoco como Roque Santeiro e Lima Duarte como Sinhozinho Malta.

    Dias Gomes, conhecido por suas críticas sociais, havia adaptado “Roque Santeiro” de uma peça anterior chamada “O Berço do Herói”, que já havia sido censurada. A nova novela, no entanto, também atraiu a atenção negativa da Censura Federal, que considerou a obra ofensiva à moral e à ordem pública. O governo alegou que o conteúdo da novela desrespeitava a Igreja e os bons costumes. Ao ser informado sobre a proibição, o presidente da Rede Globo, Roberto Marinho, anunciou a decisão em um editorial lido por Cid Moreira no Jornal Nacional, gerando uma onda de protestos dentro da emissora.

    Com a proibição, a Globo teve apenas três meses para encontrar uma substituição para a atração, resultando na produção de “Selva de Pedra” e depois “Pecado Capital”, ambas de Janete Clair, que reutilizaram partes do elenco e do cenário planejados para “Roque Santeiro”. O veto continuou até a queda do regime militar.

    Foi somente em 1985, após o fim da ditadura, que a emissora pôde regravar “Roque Santeiro”. Com o passar dos anos, o elenco original sofreu algumas mudanças. José Wilker substituiu Francisco Cuoco como Roque, e Regina Duarte assumiu o papel de Porcina, anteriormente de Betty Faria, que se recusou a voltar ao projeto por não se identificar com sua personagem. Lima Duarte foi um dos poucos membros do elenco original a retornar, reconhecendo a importância da novela no contexto da liberdade de expressão.

    Com a nova versão, “Roque Santeiro” rapidamente se tornou um grande sucesso, marcando uma nova fase na televisão brasileira, onde a crítica e a liberdade de expressão puderam ser mais amplamente exploradas. Lima Duarte ressaltou em uma entrevista que a novela simbolizava a transição e a redemocratização do país, permitindo que o povo se expressasse e refletisse sobre sua identidade e sua história.

    “Roque Santeiro” não apenas conquistou o público em audiência, mas também se tornou um marco na televisão, celebrando a liberdade artística e a renovação da narrativa nas novelas brasileiras.

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