Os neandertais, que habitaram a Eurásia por centenas de milhares de anos e desapareceram há cerca de 40 mil anos, estão novamente em evidência na pesquisa científica. Estudo recente aponta que esses ancestrais humanos mantinham hábitos mais complexos do que se pensava, incluindo interações sociais e até mesmo práticas artísticas.

    Recentes investigações abordaram diferentes aspectos da vida dos neandertais, desde seus relacionamentos pessoais, como o ato de beijar, até possíveis problemas em suas células sanguíneas que poderiam ter contribuído para sua extinção. Antes, muitos os viam como seres primitivos, sem linguagem ou capacidades morais. No entanto, a percepção começou a mudar em 2010, quando pesquisadores do Instituto Max Planck publicaram o genoma completo dos neandertais. Esse estudo revelou que pessoas com origens europeias ou asiáticas possuem até 4% de DNA neandertal, evidenciando uma forte mistura entre as duas espécies.

    Desde a década de 1990, o arqueólogo João Zilhão, da Universidade de Lisboa, defende que as diferenças cognitivas entre neandertais e humanos modernos são mínimas. Suas pesquisas na Espanha mostraram que esses hominínios criaram arte rupestre e adornos, como conchas decoradas, entre 115 mil e 65 mil anos atrás, muito antes de semelhantes descobertas ligadas ao Homo sapiens aparecerem na África ou na Europa.

    Uma descoberta significativa ocorreu em 1931, quando foram encontrados restos de uma criança, possivelmente uma menina entre 3 e 5 anos, na caverna Skhul, em Israel. Com cerca de 140 mil anos, um estudo sugere que ela pode ser um híbrido de um neandertal e um Homo sapiens, o que indicaria uma mistura genética mais antiga do que se pensava.

    Sob a liderança de Israel Hershkovitz, da Universidade de Tel Aviv, e Anne Dambricourt-Malassé, do Centro Nacional Francês de Pesquisa Científica, paleoantropólogos reconstruíram o crânio da criança usando alta tecnologia. Os resultados mostraram que a parte do crânio relacionada ao cérebro se assemelhava à dos humanos modernos, enquanto a mandíbula era similar à dos neandertais.

    Esses achados sugerem que a mistura entre as duas espécies foi mais comum do que eventos esporádicos, desafiando a ideia de que os neandertais foram rapidamente substituídos pelos humanos modernos. Hershkovitz defende que a categorização dos grupos como espécies separadas pode simplificar demais a complexa história da interação humana.

    Em termos de dieta, um estudo recente da atual Sérvia revelou que os neandertais caçavam usando táticas ousadas para capturar cabras selvagens. Nas regiões que hoje correspondem a Israel, diferentes grupos de neandertais utilizavam métodos variados para processar carne, mostrando um nível de complexidade cultural. Outros estudos também indicam que sua alimentação era mais diversificada do que se acreditava, incluindo o consumo de insetos.

    Pesquisadores liderados por Francesco d’Errico, da Universidade de Bordeaux, analisaram fragmentos de ocre encontrados em sítios neandertais na Ucrânia e na Crimeia. Entre as descobertas, um objeto que poderia ser um “giz de cera” de 42 mil anos, utilizado para desenhar, foi atribuído aos neandertais. Essa evidência reforça a noção de que eles tinham um relacionamento simbólico com a arte.

    Além disso, uma pesquisa da Universidade de Oxford sugere que neandertais e Homo sapiens também compartilharam momentos de intimidade, incluindo beijos, o que é reforçado pelo fato de ambos os grupos possuírem bactérias orais semelhantes, indicando um contato próximo ao longo do tempo.

    Esses novos estudos ajudam a reescrever a narrativa sobre os neandertais, mostrando que eles eram mais socialmente complexos e culturalmente avançados do que a visão tradicional admite.

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