A pesquisadora em nutrição Marion Nestle afirma que a indústria alimentícia tem dificultado o trabalho dos pais na hora de ensinar os filhos sobre alimentação saudável. Em uma análise sobre os produtos voltados para crianças, ela destaca que muitos deles são ultraprocessados e não contribuem para uma dieta equilibrada.
Durante uma visita ao Brasil, Marion experimentou a tradicional refeição brasileira de arroz, feijão, carne e salada e elogiou sua composição. Para ela, esse prato é saudável, mas o que conta é a quantidade consumida. Com um doutorado em biologia molecular e vasta experiência na área de nutrição, ela se tornou uma referência mundial sobre o tema, tendo escrito diversos livros e participado da elaboração de diretrizes nutricionais nos Estados Unidos.
Aos 89 anos, Marion critica a influência das grandes corporações alimentícias, que criam produtos específicos para crianças, fazendo com que elas sintam que precisam desses itens. Essa estratégia, segundo ela, deslegitima a autoridade dos pais em questões alimentares. Ela também observa que as crianças devem ser incentivadas a experimentar uma variedade de alimentos e texturas desde cedo.
Marion ressalta que não é necessário se preocupar excessivamente com a ingestão de vitaminas e minerais, desde que se consuma uma variedade de alimentos naturais. Os ultraprocessados podem ser incluídos na dieta, mas devem representar apenas uma pequena parte da alimentação.
Em sua obra “Uma verdade indigesta”, Marion descreve a relação entre a publicidade de alimentos não nutritivos e o aumento da obesidade infantil, afirmando que isso já foi evidenciado em estudos. Apesar de sua crítica, a especialista reconhece que é possível consumir alimentos ultraprocessados ocasionalmente, desde que eles não sejam a maioria da dieta.
Ela explica que alimentos ultraprocessados, como salgadinhos e doces, são feitos para serem irresistíveis e muitas vezes têm um alto teor de açúcar e sal. A nutricionista adverte sobre os riscos à saúde de uma dieta rica nesses produtos, que pode estar ligada ao aumento de doenças como obesidade e diabetes.
Marion também fala sobre a importância de ler rótulos de alimentos, elogiando a clareza dos rótulos brasileiros, que informam os ingredientes e oferecem dados sobre o conteúdo nutricional. Para identificá-los, recomenda evitar aqueles com listas longas de aditivos químicos.
Ela destaca a necessidade de expor as crianças a uma ampla gama de alimentos saudáveis e de qualidade, evitando a promoção de produtos que são comercializados como próprios para crianças. Neste sentido, Marion acredita que as crianças devem comer porções menores dos mesmos alimentos que os adultos, com menos adição de açúcar e sal.
No Brasil, existe uma nova regulamentação que limita a presença de alimentos ultraprocessados nas escolas públicas, reduzindo a porcentagem permitida de 15% para 10%. Marion considera positiva essa medida, embora não saiba dizer como funciona na prática.
Por fim, a pesquisadora comenta sobre o uso crescente de medicamentos para tratar a obesidade, observando que pessoas que usam esses medicamentos tendem a reduzir a ingestão de ultraprocessados e, consequentemente, fazem escolhas alimentares mais saudáveis.
