A busca pelo corpo ideal e a luta contra a balança têm se tornado temas muito discutidos nos últimos anos. Se você usa redes sociais ou acompanha notícias, provavelmente já ouviu falar sobre o Ozempic. Originalmente desenvolvido como um tratamento para diabetes, esse medicamento se transformou em um fenômeno global para emagrecimento, principalmente por causa de vídeos no TikTok e Instagram. Mas o que as pesquisas realmente dizem sobre esse uso? Um estudo recente analisou o interesse e o uso indiscriminado do medicamento no Brasil e no mundo.

    Entendendo o cenário: a obesidade como doença

    Antes de entendermos o medicamento, é importante tratar do problema da obesidade. A obesidade e o sobrepeso não são apenas questões estéticas ou de “falta de força de vontade”; a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece essas condições como doenças crônicas. Suas causas são diversas, incluindo fatores genéticos, má alimentação e sedentarismo, e o tratamento não é simples nem rápido.

    Hoje, a obesidade é um dos maiores desafios de saúde pública no mundo. A expectativa é que, em 2024, mais de um bilhão de pessoas sejam consideradas obesas. No Brasil, a situação é ainda mais preocupante, com índices de obesidade crescendo acima da média global. O excesso de gordura no corpo pode causar sérios problemas metabólicos, além de prejudicar a locomoção e a respiração.

    O que é o Ozempic e o que significa uso “Off-Label”?

    A semaglutida, princípio ativo do Ozempic, foi inicialmente desenvolvida e aprovada para tratar diabetes tipo 2. Com o tempo, veio à tona que o medicamento também ajudava na redução de peso, levando ao seu uso “off-label”. Esse termo refere-se ao uso de um medicamento para fins diferentes dos que constam na bula, como a perda de peso em pessoas que não têm diabetes.

    O medicamento age como um agonista do receptor do peptídeo-1 (GLP-1). Ele regula o apetite e o gasto energético, influenciando a sensação de fome e saciedade através do sistema nervoso.

    Brasil: o líder mundial no interesse pelo Ozempic

    Pesquisadores da Descomplica UniAmérica utilizaram o Google Trends para acompanhar o interesse do público entre 2014 e 2024. Os dados revelam que o Brasil é o líder global em buscas sobre o uso off-label da semaglutida.

    A trajetória do Ozempic teve uma transformação notável nos últimos anos. Entre 2017 e 2019, o medicamento foi lançado focando apenas no tratamento de diabetes, com vendas normais. Já de 2020 a 2021, surgiram os primeiros relatos de seu uso para emagrecimento, principalmente nos Estados Unidos. Com a ajuda das redes sociais, as vendas desse medicamento triplicaram.

    De 2022 a 2023, o interesse pelo Ozempic disparou, com um aumento de mais de 1900% nas buscas. Isso levou a uma escassez global do medicamento, afetando os pacientes diabéticos que necessitam dele para controlar a glicemia.

    O perigo das redes sociais e da automedicação

    Um ponto preocupante levantado pelos pesquisadores é a intensa influência de influenciadores digitais. Muitas vezes, pessoas sem formação adequada divulgam tratamentos de forma indiscriminada para milhões de seguidores. Um estudo destaca que tratar um homem de 120 kg da mesma forma que uma mulher de 70 kg é perigoso, pois a falta de personalização nas dosagens pode resultar em efeitos adversos graves.

    A automedicação para emagrecimento é um problema de saúde pública que pode levar a várias complicações. Entre os riscos estão:

    1. Eventos adversos: como náuseas, vômitos, diarreia e tonturas.
    2. Riscos graves: o uso sem acompanhamento médico pode causar problemas pancreáticos e biliares.
    3. Desfechos fatais: em situações extremas, a administração incorreta de doses inadequadas por pessoas que desejam emagrecer pode levar à morte.

    Exercício e dieta: a base que não pode ser substituída

    Embora a semaglutida possa ser uma “boa adição” ao tratamento da obesidade quando bem indicada, ela não faz milagres sozinha. O estudo enfatiza que a prática de exercícios físicos é fundamental, já que ativa o sistema nervoso, aumenta o gasto energético e ajuda na queima de gorduras. Sem uma dieta equilibrada e mudanças no estilo de vida, o uso do medicamento se torna uma solução temporária e potencialmente arriscada.

    O futuro: genéricos em 2026

    Para atender à alta demanda e pressionar por preços mais acessíveis, a ANVISA já autorizou a produção de medicamentos genéricos da família do Ozempic no Brasil, com previsão de lançamento em 2026. Contudo, especialistas alertam que, com o aumento do acesso, o número de eventos adversos decorrentes do uso sem supervisão também pode aumentar de forma significativa.

    Considerações finais

    O Ozempic se mostra como uma ferramenta poderosa na medicina atual, mas deve ser usado com cautela e responsabilidade. O emagrecimento rápido e sem esforço, frequentemente prometido na internet, ignora os riscos à saúde e a importância de um acompanhamento profissional, que deve incluir médicos, nutricionistas e farmacêuticos.

    A busca pela saúde e bem-estar deve ser feita de forma orientada, levando em conta que cada corpo é único e as soluções também precisam ser personalizadas. Portanto, é essencial que qualquer tratamento, incluindo o uso de medicamentos, seja realizado sob a supervisão de um profissional qualificado, garantindo a segurança e o cuidado com a saúde. Afinal, o que vale é o bem-estar, e não apenas a aparência.

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