Efeitos do Propranolol na Redução do Risco de AVC Isquêmico em Mulheres com Enxaqueca

    Um remédio comum, o propranolol, usado para controlar a pressão alta e prevenir enxaquecas, mostrou potencial para diminuir o risco de AVC isquêmico em mulheres que usam o medicamento para prevenir enxaquecas. Esse resultado surge de um estudo preliminar que será apresentado na Conferência Internacional da Associação Americana do AVC, marcada para fevereiro de 2025 em Los Angeles. Este evento é de grande importância para pesquisadores e profissionais de saúde focados na saúde do cérebro e em AVC.

    O propranolol é um betabloqueador que tem um efeito protetor maior nas mulheres com enxaqueca, especialmente naquelas que não têm aura, ou seja, em casos onde não há sinais visuais antes da dor de cabeça. No entanto, esse efeito não foi observado em homens.

    As enxaquecas são bastante comuns entre a população em geral, mas ocorrem três vezes mais em mulheres do que em homens. Essa condição debilitante está relacionada ao aumento do risco de AVC. Apesar de o propranolol ser utilizado para prevenir enxaquecas, ainda não está claro o quanto ele reduz o risco total de AVC.

    Mulubrhan Mogos, o principal autor do estudo e professor assistente na Universidade de Vanderbilt, alerta que enxaqueca é um fator de risco muitas vezes ignorado para problemas cardiovasculares. Ele destaca que, até pouco tempo, não havia tratamentos preventivos disponíveis para quem sofre com enxaquecas. Muitas mulheres enfrentam esse problema, e o propranolol pode ser benéfico, principalmente para aquelas que têm enxaqueca sem aura. Essa descoberta é significativa para essas mulheres.

    Outra questão levantada por Mogos é que a enxaqueca afeta desproporcionalmente mulheres de comunidades menos favorecidas. Essa desigualdade pode prejudicar a educação e o emprego, criando um ciclo vicioso. Embora novos tratamentos estejam se mostrando eficazes, muitas vezes são inacessíveis por causa do preço alto.

    Para realizar o estudo, os pesquisadores analisaram mais de 3 milhões de registros eletrônicos de saúde de duas grandes bases de dados. Eles separaram os casos de pessoas com enxaqueca que sofreram AVC e aqueles que não sofreram (grupo controle). Depois, verificaram se esses indivíduos usaram o propranolol e se isso influenciou o risco de AVC.

    Mogos explica que eles inicialmente observaram o AVC geral e, em seguida, focaram especificamente no AVC isquêmico. Após uma análise mais cuidadosa, controlando variáveis como idade, sexo, raça e outras condições (como pressão alta e diabetes), observaram que o propranolol estava de fato associado a uma diminuição do risco de AVC isquêmico em mulheres com enxaqueca.

    Os dados mostraram que o uso do propranolol reduziu o risco de AVC isquêmico em até 52% em um banco de dados e 39% em outro, em mulheres com enxaqueca sem aura. Infelizmente, não houve redução do risco em homens, o que evidencia diferenças de gênero.

    Além disso, os resultados secundários também mostraram que as taxas de AVC eram mais baixas entre mulheres que tomaram propranolol em diferentes períodos. Isso reforça a ideia de que esse medicamento pode ajudar a prevenir não apenas as enxaquecas, mas também o AVC.

    Mogos ressalta que é essencial que mulheres e profissionais de saúde discutam os benefícios das intervenções preventivas para enxaquecas. Para aqueles que enfrentam mais dificuldades e podem não ter acesso aos tratamentos, é fundamental garantir que esses medicamentos possam ser oferecidos a todos, visando reduzir as desigualdades em saúde.

    O estudo também reforça que a enxaqueca sem aura pode ser negligenciada como um fator de risco de AVC, especialmente entre mulheres. A literatura anterior já indicava que a enxaqueca é um fator risco mais significativo em mulheres do que em homens. Os resultados do estudo não foram surpreendentes, pois já existem evidências de que medicamentos semelhantes ao propranolol reduzem substancialmente o risco de AVC.

    A principal limitação do estudo é que ele se baseou apenas em dados passados, o que pode introduzir vieses, como erros de classificação. Portanto, são necessárias mais pesquisas futuras que analisem dados de forma prospectiva para confirmar essas descobertas.

    Detalhes do Estudo:
    Os pesquisadores utilizaram dados existentes para avaliar como tratamentos para enxaqueca podem ajudar a diminuir o risco de AVC. A pesquisa foi feita com duas bases de dados de registros eletrônicos de saúde: a Synthetic Derivative, mantida pela Universidade de Vanderbilt, e o Programa All of Us, gerido pelos Institutos Nacionais de Saúde.

    O estudo foi realizado na Universidade de Vanderbilt, envolvendo a Escola de Enfermagem e o Departamento de Informática Biomédica. A base de dados da Synthetic Derivative contém informações de mais de 3 milhões de pessoas ao longo de 15 anos. O Programa All of Us, até maio de 2024, tinha dados de mais de 230 mil participantes de diversas regiões dos Estados Unidos.

    Enquanto a base de dados da Vanderbilt abrange uma população mais regional, o programa All of Us inclui uma população mais ampla e diversificada, que pode justificar algumas diferenças nos resultados. Os pesquisadores incluíram tanto homens quanto mulheres diagnosticados com AVC após o início de suas primeiras enxaquecas. No grupo controle, estavam aqueles que não tiveram diagnóstico de AVC após a primeira enxaqueca.

    Esses dados são fundamentais para entender melhor a relação entre enxaqueca e risco de AVC, principalmente para o público feminino, que apresenta um número maior de casos. O estudo destaca a necessidade de atenção e novas pesquisas sobre esse tema, que pode impactar a vida de muitas mulheres.

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