Os serviços de saúde mental na rede pública do Distrito Federal estão enfrentando uma sobrecarga significativa. Apesar de serem bem avaliados pelos usuários, esses serviços lidam com desafios relacionados à expansão e cobertura para a população. Esse cenário é suportado por dados, relatos de pacientes, depoimentos de profissionais e análises de especialistas na área.

    A Secretaria de Saúde do DF afirmou que a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) está sendo ampliada, especialmente nas regiões mais vulneráveis. Para isso, foi solicitado que o Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2026 inclua a construção e ampliação de Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) na Região de Saúde Leste, que abrange localidades como Paranoá, Itapoã, São Sebastião, Jardim Botânico e Jardins Mangueiral. Também estão sendo elaborados projetos para novas unidades, especialmente nas três primeiras áreas mencionadas. O órgão destacou que as ações são planejadas com base em critérios técnicos e dependem da disponibilidade orçamentária e de terrenos adequados.

    No primeiro semestre de 2023, os CAPS no DF realizaram mais de 200 mil atendimentos, um aumento de 11,1% em relação ao mesmo período do ano anterior, que teve 180 mil atendimentos. No entanto, o tempo médio de espera para uma consulta especializada em psicologia está em torno de 270 dias, ou seja, aproximadamente oito meses. Atualmente, existem 3.763 pessoas na lista de espera para psicólogos, enquanto para psiquiatras esse número é ainda mais alarmante, com 10.224 registros.

    Dados recentes mostram que o DF possui a segunda menor cobertura de CAPS do país, com apenas 0,54 unidades por 100 mil habitantes. A média nacional é de 1,13 unidades. No total, a região conta com 18 CAPS, que funcionam em regime de porta aberta, permitindo que os pacientes procurem atendimento espontaneamente, embora isso signifique que esses serviços não aparecem nas listas formais de espera.

    A Secretaria de Saúde ressalta que esses CAPS atendem várias regiões administrativas do DF, garantindo cobertura territorial mesmo que nem todas as áreas tenham uma unidade física própria. O órgão também está construindo dois novos CAPS, um voltado para crianças e adolescentes no Recanto das Emas e outro que funcionará 24 horas no Gama, ambos com previsão de conclusão no primeiro semestre de 2026.

    Especialistas na área, como Filipe Willadino, psicólogo no CAPS II do Paranoá, enfatizam a importância da integração na expansão da RAPS. Ele aponta que é essencial fortalecer a relação entre os CAPS e a atenção primária à saúde, além de estimular a criação de unidades que funcionem 24 horas para atender a emergências. Willadino também destaca a necessidade de um cuidado mais intensivo e próximo da comunidade, já que muitos pacientes necessitam de suporte contínuo, e não apenas de atendimentos esporádicos.

    Visitas a alguns CAPS revelaram uma realidade complexa. No CAPS II do Riacho Fundo, pacientes descreveram o espaço como acolhedor, comparando-o a um “segundo lar”. Um paciente, identificado como José, relatou que, após sete anos de tratamento, desenvolveu oficinas de fotografia para outros frequentadores e se sente a vontade. Ele reconhece a alta demanda, mas ressalta a qualidade do atendimento e o acolhimento que recebe.

    Mariana, residente de Sol Nascente, compartilha que, após buscar atendimento por conta própria, notou melhorias significativas em sua vida. Com diagnósticos de depressão, ansiedade e bipolaridade, ela se sente bem tratada, elogiando a equipe do CAPS II de Taguatinga.

    Entretanto, profissionais de saúde mental expressam preocupações sobre a falta de recursos e a sobrecarga de trabalho. Em um CAPS do Plano Piloto, um enfermeiro, que preferiu se manter anônimo, mencionou as dificuldades enfrentadas, como a falta de pessoal e estrutura, embora a equipe busque atender a demanda da melhor forma possível.

    A psiquiatra Clara Nunes, que atua no CAPS AD em Ceilândia, aponta que, apesar da necessidade de expansão, a prioridade deve ser capacitar os profissionais e resolver o déficit de pessoal antes de pensar em ampliar os serviços.

    Em síntese, os serviços de saúde mental no Distrito Federal enfrentam desafios significativos, como a alta demanda e a escassez de recursos. A relevância de um atendimento acolhedor e humanizado é reconhecida, mas a infraestrutura e a quantidade de profissionais ainda são insuficientes para atender a todos que precisam de ajuda.

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