Bancos privados veem um cenário de piora no mercado de crédito e sinalizam que vão apertar as condições para novos empréstimos. A avaliação de economistas, analistas e das próprias instituições é que a situação não deve melhorar tão cedo, diante dos juros altos e do comprometimento da renda das famílias brasileiras.
O presidente do Itaú Unibanco, Milton Maluhy, afirmou que o ciclo do crédito será desafiador. Segundo ele, há um excesso de crédito concedido pelo mercado e o banco prefere abrir mão do crescimento a correr o risco de lidar com a inadimplência no futuro. O Bradesco também prometeu cautela e disse que está reduzindo o crédito pessoal e priorizando operações com garantia.
Essa postura se reflete nas reservas para perdas com calotes. No segundo trimestre, os três maiores bancos privados do país, Itaú Unibanco, Bradesco e Santander, provisionaram juntos R$ 28,7 bilhões, uma alta de 12,4% na comparação com o mesmo período de 2025. A carteira de crédito dessas instituições cresceu 9,4% no período e chegou a R$ 3,37 trilhões.
Em maio, a inadimplência geral do sistema financeiro atingiu o pico da série histórica do Banco Central, iniciada em 2011. Naquele mês, 4,74% de todo o crédito estava em atraso há mais de 90 dias. Em junho, após o início do Desenrola 2.0, o indicador caiu para 4,68%, mas ainda está acima da média histórica de 3,29%.
O pesquisador do FGV IBRE, Flávio Ataliba, atribui o percentual à Selic em 14% e à precificação de juros futuros altos por causa do risco fiscal. Ele também destaca a inflação dos alimentos, que compromete mais de 23% do orçamento das famílias que ganham até um salário mínimo. O endividamento das famílias com os bancos chegou a 49,93% em janeiro, o maior valor da série iniciada em 2005.
Diante desse quadro, os bancos estão restringindo o crédito para consumidores de baixa renda e preferindo linhas com garantia, como crédito consignado CLT, financiamento imobiliário e de veículos e operações com fundos garantidores do governo. O Santander teve o pior balanço entre os pares no segundo trimestre, com lucro abaixo do esperado por causa do maior gasto com provisões.
O Itaú revisou para baixo a projeção de crescimento da receita com serviços e seguros para 2026, de 5% a 9% para 2% a 5%. O banco cita a maior volatilidade do mercado e a menor receita com tarifas de cartões. O Bradesco, que elevou o percentual de créditos com garantia de 58,5% para 61% da carteira, ainda enfrenta inadimplência maior no varejo. O custo de crédito dos clientes do banco subiu de 5,5% para 5,9%.
Apesar das dificuldades, o Bradesco manteve a previsão de expansão da carteira de crédito entre 8,5% e 10,5% para o ano. A expectativa dos executivos é de uma desaceleração gradual nas concessões, considerando o crescimento de 11,6% no primeiro semestre.

