O Instituto Conhecer Brasil contratou um escritório de advocacia que representou o deputado federal Mário Frias (PL-SP) em quatro ações na Justiça para atuar na execução de um programa com a Prefeitura de São Paulo. O programa, que prevê a manutenção de pontos públicos de acesso a Wi-Fi em comunidades da periferia, é alvo da Polícia Civil por suspeita de fraude e desvio de recurso público. Uma operação com buscas e apreensões foi realizada na última segunda-feira, 1.
O advogado recebeu R$ 341,9 mil da ONG sem o detalhamento do serviço prestado, conforme prestação de contas a que o Estadão teve acesso. A contratação foi revelada pelo portal “UOL”.
O Instituto Conhecer Brasil é presidido por Karina da Gama, dona da Go Up Entertainment, produtora de “Dark Horse”, filme inspirado na vida do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). O roteiro do longa-metragem é assinado por Frias. A Polícia Civil de São Paulo suspeita de confusão patrimonial entre o instituto e a produtora, além de desvio de dinheiro recebido pelo contrato para custear o filme.
Em junho de 2024, a entidade fechou um contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo para instalar pontos de wi-fi livre em comunidades de baixa renda. Em dezembro de 2025, o contrato recebeu um aditivo de R$ 49,1 milhões para manutenção dos roteadores já instalados, elevando os repasses a R$ 157,1 milhões.
O delegado Antônio Carlos Munuera Silveira, titular da 2.ª DICCA, escreveu em ofício que há suspeitas de desvio de recursos públicos do programa “WiFi Livre SP” para a produção do filme. Ele requisitou ao Coaf a análise das movimentações financeiras de Karina Ferreira da Gama, do ICB e da produtora Go Up Entertainment.
Segundo a prestação de contas, de julho de 2024 a julho de 2025, foram feitos 12 pagamentos ao escritório Aguilera Martinez, totalizando R$ 151 mil em julho de 2024 e mais 11 prestações de R$ 17,3 mil. As despesas são descritas como “prestação de serviços jurídicos”, sem detalhamento.
O escritório também representou Mário Frias em três processos na Justiça Eleitoral e um na Justiça Estadual de São Paulo. A Prefeitura de São Paulo negou irregularidades e classificou os fatos como “ilação”, “sem fundamento” e “sem provas”.
Outro advogado de Frias, Fabio Lago Meirelles, foi contratado com dinheiro de emenda do próprio parlamentar. Em 2024, Frias destinou duas emendas de R$ 1 milhão cada para projetos da ONG. Em fevereiro deste ano, a ONG fez dois repasses a uma empresa de Meirelles: R$ 30 mil para serviços de contabilidade e R$ 50 mil para serviços jurídicos.
A ONG também contratou o produtor de eventos Marcelo Machado, dirigente de outra entidade presidida por Karina, a Academia Nacional de Cultura. Ele recebeu R$ 50 mil para serviços de “divulgação” ao projeto “Jovem Empreendedor”, contratação vedada por lei devido ao conflito de interesses.
Procurados, o Instituto Conhecer Brasil e o advogado Diego Martinez não responderam. A Prefeitura de São Paulo afirmou ter colaborado com a investigação e repudiou as suspeitas de desvios.

